A Banalização Do Mal


Em meio à cobertura jornalística dos acontecimentos da segunda-feira, dia 24 de fevereiro, que transformaram o Rio de Janeiro em verdadeira praça de guerra, o gráfico de um jornal carioca indicava, sobre o mapa da região metropolitana, os locais em que os episódios haviam ocorrido. Cerca de 60 incidentes foram representados na ilustração, sendo que mais da metade correspondia a ônibus incendiados ou depredados.
A violência continuou madrugada adentro e foi impossível dar números finais aos lamentáveis eventos do dia. Na quinta-feira já se contavam 34 ônibus incendiados e 19 depredados, mas a terrível rotina com que esses fatos vêm ocorrendo nos últimos anos nos leva a perguntar se a violência contra o transporte coletivo terá fim algum dia. O total dos últimos quatro anos já chega a 230 veículos incendiados e a mais de 700 depredados. É como se toda a frota de uma empresa tivesse sido sumariamente eliminada.
Os atos de vandalismo contra os ônibus, que surpreendentemente estão se tornando triviais e vulgares, não somente colocam em risco a vida de milhares de inocentes, como também ameaçam parar as atividades deste setor essencial para a população. A situação é tão grave que pode tornar inviável a presença dos ônibus nas ruas, não só pelo sério risco de serem destruídos, mas também porque os rodoviários recusam-se a atuar nas atuais condições de insegurança e terror.
Passageiros e profissionais são obrigados a sair dos veículos às pressas, debaixo da ameaça de uma arma ou sob pena de terem seus corpos queimados, e cada vez mais essas ameaças chegam às vias de fato. É desumano obrigar uma pessoa, que está trabalhando pelo sustento de sua família, a expor a própria vida.
As empresas de ônibus estão fazendo um esforço supremo para manter suas frotas a serviço da população, mas a reposição dos ônibus perdidos é cada vez mais difícil, pois esses veículos não possuem seguro, já que é impossível encontrar empresas seguradoras que aceitem os riscos inerentes à atividade de transporte de passageiros numa situação como a que estamos enfrentando.
Não se pode minimizar o que vem ocorrendo nestes últimos anos com o transporte coletivo do Rio de Janeiro. Não nos enganemos: a maldade que hoje se pratica contra os ônibus tem a intenção de intimidar e coagir não apenas os profissionais que atuam neste setor, mas toda a população. Por que os ônibus são o principal alvo desta fúria? A quem interessa a paralisação do principal meio de transporte de cariocas e fluminenses? O resultado é conhecido: muitos bairros poderão deixar de ser atendidos, ficando entregues ao transporte ilegal. E os direitos básicos de defesa do consumidor, além da gratuidade para deficientes físicos, crianças e idosos, entre outras importantes conquistas da cidadania, serão simplesmente perdidos.
O que está acontecendo no Rio de Janeiro deve servir de alerta a toda a população brasileira. O prejuízo não é apenas financeiro. E não é somente das empresas de transporte de passageiros. Perde-se muito mais do que algumas centenas de veículos: todo o sistema de transporte legal está sendo mortalmente ferido, o que pode representar em pouco tempo gravíssimos prejuízos para a economia e até mesmo para o estado de direito. Perde o estado brasileiro, que deixa de receber tributos e tem sua credibilidade questionada. Perde a população, que em sua maioria depende deste meio de transporte para suas necessidades vitais. Perde-se o espírito democrático nas ruas da cidade, pois o cidadão já não tem mais a liberdade de ir-e-vir, direito básico de todo ser humano.